Após o Supremo Tribunal Federal esclarecer que o diretor do Banco Central Ailton de Aquino não é investigado no caso envolvendo o banco Master, técnicos da autoridade monetária relataram alívio interno. A tranquilidade, no entanto, é parcial. Persistem dúvidas e preocupações sobre a manutenção da acareação marcada para esta terça-feira (30) e sobre uma possível tentativa de envolver o Banco Central nas investigações.
Na última sexta-feira (26), o BC apresentou embargos de declaração ao ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, solicitando esclarecimentos sobre a convocação do diretor de Fiscalização para uma acareação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa. A audiência ocorre em um processo que tramita em sigilo e apura suspeitas de fraude em papéis vendidos pelo Master ao BRB.
O ministro negou os embargos, mas deixou claro que Ailton de Aquino Santos não comparecerá na condição de investigado. Segundo Toffoli, o diretor foi convocado apenas para esclarecer pontos técnicos durante a acareação, cuja urgência foi justificada pelos possíveis impactos no mercado financeiro.
Mesmo após a decisão, técnicos do Banco Central seguem questionando a pertinência da convocação. Internamente, o entendimento é de que, caso o diretor vá prestar esclarecimentos técnicos, não haveria razão para sua presença em uma acareação entre dois investigados com versões conflitantes. O receio é de que a medida possa abrir espaço para algum tipo de armadilha processual capaz de envolver indevidamente integrantes da cúpula do BC.
A preocupação ganha força diante do histórico de divergências internas no Banco Central sobre o caso. Ailton de Aquino defendia a venda do Banco Master ao BRB como alternativa para enfrentar a crise da instituição controlada por Daniel Vorcaro. Já a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, comandada por Renato Gomes, se posicionou contra a operação após identificar fraudes bancárias estimadas em cerca de R$ 12 bilhões.
Foi essa diretoria, inclusive, a responsável por propor a liquidação do banco Master, medida que acabou sendo aprovada pela diretoria colegiada do Banco Central. Diante disso, técnicos questionam por que apenas Ailton de Aquino foi convocado para a acareação, e não Renato Gomes, responsável pela proposta de liquidação. Para eles, a escolha levanta dúvidas sobre critérios e motivações.
No corpo técnico do BC, cresce o temor de que a instituição, que iniciou as apurações e identificou as irregularidades no sistema financeiro, acabe sendo indevidamente arrastada para o centro de uma investigação que deveria se concentrar nos responsáveis pelas fraudes. A inquietação se resume a uma pergunta central que ainda ecoa nos bastidores: o processo seguirá uma lógica técnica ou acabará contaminado por interesses políticos e pela influência de um banqueiro com trânsito no Congresso Nacional.