A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, aproveitou a leitura da mensagem anual na Assembleia Legislativa, nesta terça-feira, para fazer mais do que a tradicional prestação de contas. O discurso, com cerca de 54 minutos, teve clima de balanço final de gestão e também de despedida do cargo, após dois mandatos seguidos à frente do Executivo estadual.
Ao longo da fala, a governadora buscou destacar obras, programas e investimentos realizados desde 2019, numa tentativa de consolidar um legado político. Para críticos, no entanto, a apresentação soou mais como uma narrativa de encerramento de ciclo do que como um retrato fiel da situação financeira e administrativa que será herdada pelo próximo governo.
O principal destaque foi novamente a duplicação da BR-304. Fátima afirmou que as obras começaram em janeiro e classificou o projeto como estruturante para o desenvolvimento do estado, com impacto na segurança viária e no escoamento da produção.
Apesar do discurso otimista, a iniciativa ainda enfrenta dúvidas sobre prazos e execução. O Rio Grande do Norte segue convivendo com dificuldades fiscais e limitações orçamentárias, o que levanta questionamentos sobre a capacidade de concluir uma obra desse porte dentro do atual mandato. Nos bastidores, há quem avalie que o lançamento em ano pré-eleitoral tem forte peso simbólico e político, repetindo a prática de anunciar grandes projetos cuja entrega pode ficar para a próxima gestão.
O cenário político também impõe desafios. Fátima tem buscado apoio fora do estado para viabilizar seus próximos passos. Em entrevista após a solenidade, confirmou a intenção de disputar uma vaga no Senado, dentro de uma estratégia que, segundo ela, é prioridade do presidente Lula e do PT nacional. Ao mesmo tempo, o governo já articula o nome do secretário Cadu Xavier como possível candidato à sucessão estadual.
Durante o discurso, a governadora voltou a lembrar que assumiu o estado com salários atrasados, obras paradas e desorganização administrativa. O argumento tem sido usado ao longo dos anos para contextualizar as dificuldades enfrentadas. Ainda assim, após mais de seis anos de gestão, parte da classe política e da população cobra soluções mais definitivas para problemas que continuam presentes no dia a dia.
A própria leitura da mensagem ocorreu com atraso de uma semana em relação à abertura dos trabalhos legislativos, por causa de compromissos na agenda da governadora. Um detalhe que, para observadores, simboliza um governo que chega ao fim dividido entre o discurso de realizações, os planos eleitorais e uma realidade administrativa ainda cercada de incertezas.