Uma pesquisa publicada na edição de março de 2025 da revista Neuropharmacology identificou uma via molecular que pode ajudar a entender — e futuramente tratar — a dependência de álcool. O trabalho mostra que camundongos geneticamente modificados para não produzir a enzima Acss2 (acetil-CoA sintetase 2) apresentaram redução significativa no consumo voluntário de álcool em testes de “binge drinking”, modelo usado para simular o consumo excessivo em humanos.
A enzima Acss2 é responsável por transformar o acetato — um subproduto do metabolismo do álcool — em uma molécula usada para modificar proteínas do DNA, alterando o modo como os genes são ativados no cérebro. Quando os cientistas bloquearam essa enzima, observaram mudanças epigenéticas e menor ativação de genes relacionados à recompensa e ao prazer no chamado estriato ventral, uma região cerebral associada ao desejo de beber.
Os experimentos foram realizados em camundongos machos e mostraram que a ausência da Acss2 reduziu o consumo e a motivação para beber álcool, sem afetar o comportamento geral dos animais. A análise molecular revelou uma diminuição na acetilação de histonas — uma modificação química que controla o funcionamento dos genes — o que sugere que a enzima participa da regulação epigenética ligada ao consumo de substâncias.
Para os autores, o resultado indica que mirar a via Acss2 e o metabolismo do acetato pode abrir caminho para novos tratamentos contra o transtorno por uso de álcool. Apesar disso, o estudo ainda está em fase pré-clínica, realizado apenas em modelos animais, e não representa uma terapia disponível ou testada em humanos.
Os pesquisadores alertam que o comportamento de beber é influenciado por múltiplos fatores — biológicos, psicológicos e sociais — e que a descoberta não equivale a “eliminar o desejo de beber”. Ainda assim, compreender como o álcool altera o cérebro em nível molecular pode ajudar a desenvolver abordagens mais eficazes e menos estigmatizantes para o tratamento da dependência.
No Brasil, o transtorno por uso de álcool afeta milhões de pessoas e está entre as principais causas de internações psiquiátricas. Pesquisas como essa reforçam a importância de investir em ciência e prevenção, mostrando que o vício não é apenas uma questão de força de vontade, mas também de biologia.