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Fraudes no CNU: PF desarticula quadrilha que vendia vagas por até R$ 500 mil

A Polícia Federal deflagrou nesta semana a Operação “Última Fase”, que mira uma organização criminosa suspeita de fraudar o Concurso Nacional Unificado (CNU/CPNU 2024). Segundo as investigações, o grupo cobrava até R$ 500 mil para garantir a aprovação de candidatos em provas aplicadas em diferentes estados do país. As ações ocorreram em três estados e resultaram em prisões preventivas, mandados de busca e apreensão, afastamento de servidores e bloqueio de bens. Entre os investigados está Thyago Andrade, apontado pela PF como um dos líderes do esquema.

As investigações revelaram um modus operandi sofisticado, com o uso de dispositivos eletrônicos de escuta instalados de forma discreta, o chamado “ponto eletrônico cirúrgico”, que permitia aos candidatos receber respostas durante a prova. Em outros casos, pessoas faziam as provas no lugar dos verdadeiros inscritos, utilizando documentos falsificados e contando com a conivência de seguranças infiltrados nos locais de aplicação. A PF também identificou candidatos que obtiveram índices de acerto praticamente idênticos, inclusive errando as mesmas questões, o que levantou suspeitas de manipulação coordenada. Um dos episódios que chamou atenção envolveu dois irmãos que realizaram provas em turnos diferentes e obtiveram resultados matematicamente idênticos, fato que ajudou a expor a estrutura da quadrilha.

De acordo com o inquérito, a organização contava com um verdadeiro “staff de especialistas”, encarregados de falsificar documentos, infiltrar membros em comissões de concurso e corromper seguranças. Os valores cobrados variavam de R$ 300 mil a R$ 500 mil por candidato, conforme o cargo pretendido e a dificuldade do certame. A quadrilha também teria atuado em outros processos seletivos, como os da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Polícias Civis de Pernambuco e Alagoas e na Universidade Federal da Paraíba.

Em nota oficial, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) classificou as fraudes como “pontuais” e afirmou que os candidatos envolvidos já foram eliminados do certame. O órgão garantiu que as medidas de controle e monitoramento serão reforçadas para o CNU 2025, cuja aplicação de provas segue mantida. “A apuração demonstra a eficácia dos mecanismos de segurança implementados. Nenhum candidato que tentou fraudar o certame será nomeado”, informou o comunicado.

Apesar da posição do governo, especialistas em segurança pública contestam a versão de que o episódio se limita a casos isolados. Para o professor e ex-delegado Paulo Neves, consultor em integridade pública, a operação revela fragilidades estruturais nos sistemas de concursos federais. “Houve logística nacional, valores milionários e uso de tecnologia de espionagem. Isso não é caso isolado, é uma máfia que se adaptou à era digital”, afirmou.

Os investigados poderão responder por fraude em certame público, organização criminosa, falsificação de documento público e lavagem de dinheiro. O inquérito segue sob sigilo, mas fontes ligadas à PF indicam que novas fases da operação podem ocorrer nas próximas semanas. Enquanto isso, o Ministério da Gestão tenta preservar a imagem do CNU, o maior concurso unificado da história do país, que teve mais de 2,5 milhões de inscritos.

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