Em meio às críticas sobre a situação financeira do Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra e o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier, que também é pré-candidato ao governo, reuniram parte da imprensa nesta quarta-feira em um café da manhã no Museu da Rampa, em Natal. O encontro foi apresentado como uma prestação de contas da gestão e uma tentativa de rebater informações de que o estado estaria próximo de um colapso fiscal.
Durante a conversa, Cadu defendeu o papel do jornalismo no debate público e afirmou que a imprensa é essencial para o fortalecimento da democracia, especialmente em tempos de desinformação. A governadora seguiu a mesma linha e agradeceu a presença dos profissionais, destacando a importância da liberdade de expressão e do contraditório.
O discurso, no entanto, esbarra na prática. Enquanto fala em valorização da imprensa, o governo mantém uma relação cada vez mais seletiva com os veículos, priorizando aliados e reagindo com ataques ou desqualificações quando surgem reportagens críticas, principalmente as classificadas como de direita. O resultado é um ambiente de confronto político, não de transparência.
Na apresentação, o secretário exibiu números para sustentar que as contas estão sob controle, citando redução de despesas com pessoal, queda na dívida líquida e impacto de precatórios herdados de gestões anteriores. A narrativa buscou afastar a ideia de crise financeira.
Ficaram de fora, porém, temas que afetam diretamente a população e os servidores. Não houve explicações detalhadas sobre o atraso nos repasses de consignados aos bancos, situação que levou muitos funcionários públicos a terem o nome negativado mesmo com os descontos feitos em folha. Também não foram esclarecidos os atrasos nas transferências de impostos que pertencem aos municípios, reclamação frequente de prefeitos.
Ao tentar desconstruir a percepção de dificuldades com números técnicos e discursos otimistas, o governo evita reconhecer falhas administrativas e problemas concretos do dia a dia. A estratégia pode até funcionar como narrativa política, mas não resolve a insatisfação de quem enfrenta salários comprometidos, serviços precários e cidades com infraestrutura deficiente.
No fim, o encontro serviu mais como um gesto de articulação política em ano pré-eleitoral do que como um debate aberto sobre os desafios reais do estado. Falar em democracia exige mais do que elogiar a imprensa amiga. Exige responder às críticas, admitir erros e apresentar soluções claras.