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“Meu querido diário”: Moraes ironiza defesa de Ramagem em caso de suposta trama golpista

O julgamento sobre a suposta trama golpista envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados ganhou, nesta terça-feira (9/9), um episódio digno de crônica política. O ministro Alexandre de Moraes classificou como “meu querido diário” os documentos sobre fraudes nas eleições encontrados no celular do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin.

Segundo Moraes, Ramagem admitiu a autoria do material, mas tentou justificar afirmando que as anotações eram apenas “particulares”, feitas para si mesmo, como um diário íntimo. O problema é que o conteúdo não tinha nada de confissões pessoais sobre amores ou desabafos — tratava-se de tópicos que questionavam a lisura das urnas eletrônicas, nos mesmos moldes usados por Bolsonaro em sua famosa live contra o sistema eleitoral.

Ramagem sustenta que nunca compartilhou os arquivos e que se tratava apenas de material de “controle pessoal”. Mas a Procuradoria-Geral da República (PGR) aponta que esses documentos integravam uma engrenagem para desacreditar o sistema eleitoral, inclusive com tentativas de envolver a Abin em supostos testes de segurança.

Entre os arquivos encontrados, havia um intitulado “Bom dia, presidente”, que falava sobre a criação de um grupo para discutir as urnas eletrônicas. Ramagem insiste que tudo não passou de organização pessoal. Já Moraes enxerga outra coisa: “estruturação criminosa para atentar contra o Poder Judiciário”.

As anotações de Augusto Heleno, ex-ministro do GSI, também foram citadas por Moraes como parte dessa “agenda golpista”. Para o ministro, a coincidência entre os registros de Ramagem e de Heleno mostra que não se tratava de devaneios individuais, mas de uma estratégia coordenada.

A Primeira Turma do STF retomou o julgamento de Bolsonaro e outros sete aliados, acusados de conspirar para impedir a posse de Lula em 2022. Moraes, como relator, não poupou ironia nem firmeza, colocando Ramagem no centro do debate.

A grande questão que fica é: seriam de fato “anotações pessoais” de um ex-diretor da Abin com mania de diário político, ou registros de bastidores de uma tentativa de golpe?
Seja como for, o episódio reforça a máxima: em política, até o “querido diário” pode virar prova criminal.

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