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Novos estudos: Vapes, a moda que parecia inofensiva esconde riscos sérios à saúde

Quando os cigarros eletrônicos começaram a virar febre, lá por volta de 2015, muita gente viu neles uma luz no fim do túnel. Uma alternativa “mais saudável” aos cigarros tradicionais, com menos cheiro, menos fumaça e — segundo as promessas — uma ajudinha para largar o vício. Mas agora, quase uma década depois, a ciência começa a revelar o outro lado dessa história: os riscos são reais e vão muito além do que se imaginava.

Do sonho à preocupação

No início, os pequenos dispositivos coloridos, muitas vezes com sabores doces e frutados, pareciam inofensivos. Mas pesquisadores começaram a levantar alertas preocupantes. Em um estudo recente, por exemplo, a névoa liberada por vapes populares apresentou níveis tão altos de metais pesados que um dos cientistas pensou que seu equipamento estava com defeito.

E não para por aí. Cada vez mais evidências apontam que os vapes podem afetar o coração, os pulmões, o cérebro e até causar dependência química tão séria quanto a do cigarro comum.

Mas enquanto os estudos avançam, o apoio a pesquisas e programas de combate ao tabagismo perdeu força. Durante o governo Trump, uma unidade federal focada em tabaco e saúde foi desativada, e programas que ajudavam pessoas a parar de fumar — ou de usar vapes — tiveram recursos cortados.

Ainda sabemos pouco — e isso é preocupante

Os efeitos de longo prazo ainda são um mistério, porque os dispositivos são relativamente novos e estão sempre mudando. Além disso, muitos usuários são jovens, o que significa que as consequências mais graves podem demorar a aparecer.

Outro fator que atrapalha os estudos é que muita gente mistura o uso de cigarros e vapes, o que torna difícil saber exatamente qual deles está causando o dano.

Mesmo assim, os números preocupam. Uma pesquisa de 2024 mostrou que quase 8% dos estudantes do ensino médio nos EUA disseram ter usado vape no último mês. Entre os adultos, 4,5% usaram em 2021.

E como diz o médico James H. Stein, da Universidade de Wisconsin: “Você não precisa ser cientista para saber que inalar vapor cheio de substâncias químicas direto nos pulmões não parece uma boa ideia. Sua mãe te diria isso”.

Coração sob pressão

Uma tragada de vape já é suficiente para acelerar os batimentos do coração e contrair os vasos sanguíneos. Se isso acontece repetidamente ao longo do dia, o corpo vive em estado de alerta, como se estivesse sob pressão constante. Isso pode aumentar o risco de arritmias, derrames e até infarto.

Quando o líquido do vape é aquecido demais, ele pode liberar substâncias tóxicas, como formaldeído e acetaldeído, que entram na corrente sanguínea, inflamam os vasos e sobrecarregam o coração.

Parar também não é simples. A abstinência de nicotina pode causar sintomas físicos como pressão alta e taquicardia, além de ansiedade e irritação.

Os pulmões também sofrem

O uso frequente de vape pode provocar inflamações nas vias aéreas, piorar a asma e causar tosse crônica e falta de ar. E mesmo que ainda não se saiba com certeza se os vapes causam câncer, já está claro que eles expõem o organismo a substâncias com alto potencial cancerígeno.

Em testes com três marcas populares de vapes descartáveis, pesquisadores encontraram altos níveis de metais pesados como níquel, chumbo e antimônio — todos associados a doenças graves, como câncer de pulmão e danos neurológicos.

Os sabores artificiais, que parecem inofensivos, também representam risco. Alguns compostos usados nesses líquidos podem danificar as células dos pulmões e do coração. E em casos mais graves, já houve registros de uma condição chamada “pulmão de pipoca”, causada por um composto chamado diacetil — presente em alguns sabores (hoje, as grandes marcas dizem não usar mais).

Um surto em 2019 deixou 68 mortos nos EUA por lesões pulmonares causadas por vapes que continham acetato de vitamina E.

A saúde da boca também sente

A nicotina presente nos vapes, assim como nos cigarros, prejudica a circulação sanguínea nas gengivas, deixando a boca mais vulnerável a infecções e doenças periodontais. Com o tempo, o dano ao tecido gengival pode ser irreversível.

Dependência real, especialmente entre jovens

Pamela Ling, médica e pesquisadora da Universidade da Califórnia, acompanha casos de adolescentes que dormem com o vape escondido debaixo do travesseiro. A primeira coisa que fazem ao acordar? Dar uma tragada.

A dependência é real — e mais grave quando começa na juventude, com o cérebro ainda em desenvolvimento. E os sintomas de abstinência não são brincadeira: ansiedade, irritação, dificuldade de concentração e até depressão.

Para piorar, os dispositivos estão ficando cada vez mais potentes. Já existem vapes com até 20 mil tragadas — o equivalente a 100 maços de cigarro. “Os produtos chegam às prateleiras mais rápido do que a ciência consegue estudar”, desabafa Ling.

Um alerta necessário

Os vapes podem até parecer modernos, discretos e menos agressivos do que os cigarros comuns. Mas por trás da fumaça doce e dos dispositivos coloridos, há um cenário cada vez mais preocupante.

A ciência ainda está correndo atrás das respostas, mas o que já se sabe basta para um aviso claro: os riscos existem — e estão longe de serem pequenos.

Fonte: Folha de S.Paulo

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