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Prefeito de Mossoró fica em silêncio sobre senhas de celular e computador apreendidos pela PF em investigação sobre contratos de medicamentos

O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, foi alvo de mandados de busca e apreensão no fim de janeiro durante a Operação Mederi, da Polícia Federal, que apura um suposto esquema de fraudes em licitações para compra de medicamentos no Rio Grande do Norte. Durante a ação, ele optou por não informar as senhas do celular e de um computador recolhidos pelos agentes.

De acordo com a investigação, o prefeito é suspeito de receber 15% sobre o valor de cada nota fiscal emitida pela empresa Dismed, fornecedora de medicamentos para o município. A empresa teria movimentado cerca de R$ 13,5 milhões em contratos entre 2021 e 2025.

A defesa informou que não vai comentar o caso. No dia em que a operação foi deflagrada, os advogados afirmaram que não existe qualquer fato que ligue diretamente Allyson às suspeitas de fraude ou pagamento de propina.

O celular do prefeito, um iPhone azul, foi apreendido durante abordagem pessoal em Mossoró. Segundo relatório da PF, ele se recusou a desbloquear o aparelho. Mesmo assim, os peritos afirmam que possuem ferramentas capazes de acessar dados armazenados no dispositivo, inclusive arquivos remotos.

Na mochila do gestor, os policiais também encontraram um notebook, dois HDs externos e um pendrive. O acesso aos equipamentos não foi autorizado.

Outro endereço vistoriado foi o apartamento do prefeito em Natal, no bairro de Ponta Negra. A busca começou por volta das 8h. Allyson não estava no local naquele momento. O relatório aponta que havia sinais de uso recente e objetos pessoais espalhados pela residência.

Um cofre e uma gaveta trancada foram arrombados, mas estavam vazios. Nada considerado relevante para a investigação foi encontrado nesses compartimentos.

No escritório do imóvel, os agentes apreenderam mais um celular, da marca Positivo, um cartão de memória, anotações, planilhas, documentos e um comprovante de cartão de crédito no valor de R$ 1.349,56, datado de 23 de janeiro de 2026. O delegado responsável também registrou que o apartamento aparentava ter passado por reforma recente.

Entre os objetos localizados estava ainda um chapéu de vaqueiro, acessório que se tornou marca registrada do prefeito e que ele usou recentemente em evento de lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Estado. Allyson já declarou que pretende deixar a prefeitura em março para disputar o Executivo estadual.

Escuta cita “quinze do homem”

Parte das suspeitas da Polícia Federal se baseia em uma escuta ambiental realizada nas dependências da Dismed. Em uma conversa, o empresário Oseas Monthalggan comenta a divisão de valores.

Na gravação, ele fala em “quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento”.

Para os investigadores, o contexto indica que a expressão “o homem” seria uma referência indireta ao prefeito de Mossoró.

A PF também avalia que há indícios de que o gestor teria cautela para evitar exposição. Em outro trecho da conversa, o empresário afirma que seria preciso cuidado para que ninguém soubesse do que estava acontecendo.

Segundo os policiais, esse comportamento sugeriria consciência de irregularidades por parte dos envolvidos.

Defesa nega ligação com o esquema

Em nota divulgada no dia da operação, a defesa do prefeito negou qualquer participação de Allyson nas supostas fraudes. Os advogados afirmam que a investigação trata de contratos firmados entre municípios e empresas de medicamentos, sem relação direta com a conduta pessoal do gestor.

A nota destaca ainda que o prefeito não foi afastado do cargo, não sofreu medidas restritivas e segue exercendo suas funções normalmente. Também ressalta que ele colaborou com a diligência e confia que a apuração técnica irá comprovar sua inocência.

Como argumento de transparência, a defesa citou a criação de um decreto municipal que tornou obrigatório o uso do sistema nacional de controle de estoque e dispensação de medicamentos, sob fiscalização da Controladoria do Município.

Por fim, os advogados reforçaram a confiança nas instituições e na preservação do princípio da presunção de inocência.

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