Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morto no domingo (30) após invadir a jaula de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, tinha uma história marcada por vulnerabilidade, abandono familiar e transtornos mentais não tratados. Sua trajetória ajuda a explicar como um episódio tão extremo pôde acontecer.
Gerson foi acolhido ainda criança pelo Conselho Tutelar de Mangabeira. Ele havia sido encontrado sozinho à beira de uma estrada por policiais rodoviários e, desde então, passou a viver sob os cuidados do Estado. Segundo profissionais que o acompanharam durante anos, o jovem apresentava sinais de esquizofrenia desde a adolescência, com episódios de delírios e ideias fantasiosas persistentes.
A conselheira que o acompanhava relata que Gerson tinha um sonho recorrente: dizia querer ir à África para “domar leões”. Esse desejo, segundo ela, fazia parte de seu quadro de transtorno mental e aparecia com força especialmente nos momentos de crise. Em uma dessas ocasiões, ele chegou a tentar entrar escondido no trem de pouso de um avião, acreditando que conseguiria viajar para o continente africano.
O histórico familiar de Gerson também indicava fragilidades importantes. Sua mãe e seus avós maternos tinham problemas psiquiátricos e, por isso, ele não pôde permanecer com a família. Mesmo com irmãos que chegaram a ser adotados, Gerson nunca encontrou um lar definitivo. Por causa de sua condição de saúde e comportamento instável, passou por abrigos, programas de acolhimento, instituições de saúde mental e centros socioeducativos.
O jovem acumulava ainda diversas passagens por delegacias durante a adolescência, a maioria ligada a episódios de fuga, pequenos delitos e situações de risco. Pessoas que acompanharam sua trajetória afirmam que ele precisava de tratamento contínuo, mas que sua permanência nas unidades de saúde era instável, com repetidas fugas e interrupções.
No domingo (30), Gerson escalou a estrutura de proteção da área dos felinos, ultrapassou as grades e usou uma árvore interna para alcançar o recinto da leoa. Minutos depois, foi atacado e morreu em consequência dos ferimentos.
O caso expõe uma cadeia de falhas no acompanhamento de pessoas em situação de vulnerabilidade extrema. A conselheira que o acompanhava desabafou após o ocorrido que “o Estado falhou com Gerson” e que o resultado foi uma tragédia anunciada. O episódio reacende o debate sobre saúde mental, abandono social e a falta de estruturas adequadas para jovens com transtornos graves.