O governo da Rússia anunciou que uma vacina contra o câncer colorretal estaria “pronta para uso” após resultados positivos em testes pré-clínicos. A declaração foi feita por Veronika Skvortsova, chefe da Agência Federal de Medicina e Biologia do país, durante um fórum econômico em Vladivostok.
Segundo ela, a pesquisa durou vários anos e os últimos três foram dedicados aos estudos obrigatórios em laboratório e em animais. A expectativa agora seria apenas a aprovação oficial para iniciar a aplicação.
O problema é que os dados desses testes não foram publicados em revistas científicas nem submetidos à revisão por pares, procedimento padrão na comunidade internacional para validar segurança e eficácia de novos medicamentos. Até o momento, as informações disponíveis estão restritas a comunicados do próprio governo russo.
Por que isso gera polêmica?
Especialistas explicam que todo novo medicamento precisa passar por etapas rigorosas antes de chegar à população. Primeiro vêm os testes pré-clínicos, feitos em laboratório e em animais. Se houver resultados promissores, começam os estudos clínicos em humanos, divididos em três fases.
Muitas vacinas apresentam bons resultados nas fases iniciais, mas acabam reprovadas na fase 3 por falta de eficácia ou por efeitos colaterais relevantes. Por isso, a transparência dos dados é considerada essencial.
No caso da vacina russa, não está claro se a autorização mencionada seria apenas para iniciar testes clínicos em humanos ou se o governo cogita liberar o imunizante diretamente para uso fora de estudos, o que aumentaria ainda mais a preocupação.
Para médicos e pesquisadores ouvidos por veículos internacionais, ainda é impossível saber em que estágio real de desenvolvimento o produto se encontra.
Como funciona a vacina?
A tecnologia utilizada é a de RNA mensageiro, a mesma usada nas vacinas contra a Covid-19. Porém, neste caso, trata-se de uma vacina terapêutica, não preventiva.
Ela é personalizada: uma proteína retirada do próprio tumor do paciente é usada para estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células cancerígenas. A proposta é “ensinar” o organismo a combater o câncer, algo que normalmente não acontece porque os tumores conseguem escapar da vigilância imunológica.
Segundo as autoridades russas, nos testes pré-clínicos houve redução de 60% a 80% no crescimento dos tumores, além de aumento na sobrevida dos animais estudados. No entanto, sem publicação científica, esses números não podem ser verificados de forma independente.
Outros países também pesquisam vacinas contra o câncer
A ideia de usar RNAm contra tumores não é exclusiva da Rússia. Empresas como Moderna e MSD já estão em fases avançadas de estudos clínicos com vacinas terapêuticas contra melanoma. Resultados publicados na revista The Lancet indicaram redução significativa no risco de recorrência e morte.
Especialistas estimam que as primeiras vacinas contra o câncer com aprovação regulatória internacional devem surgir até o fim da década, desde que os testes clínicos confirmem segurança e eficácia.
No caso russo, porém, a ausência de transparência e a falta de dados publicados alimentam o ceticismo da comunidade científica internacional.