A menos de três meses da COP30, evento climático da ONU que será sediado em Belém (PA) em novembro, uma crise no setor de hospedagem ameaça o sucesso da conferência. Hotéis da capital paraense estão se recusando a prestar informações ao Ministério da Justiça sobre os preços exorbitantes cobrados para o período, com diárias que chegam a R$ 206 mil.
Segundo documentos obtidos pela Folha de S.Paulo, ao menos dez redes hoteleiras não responderam — ou omitiram dados — em um processo aberto pela Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor), ligada ao Ministério da Justiça, que apura práticas abusivas de preço.
Preços fora da realidade
Um dos casos mais alarmantes envolve o hotel de luxo da rede Tivoli, construído especialmente para a COP30 com R$ 20 milhões em crédito público. O empreendimento cobra R$ 15 mil em média por diária, e sua suíte presidencial atinge os R$ 206 mil por noite.
Em resposta à Senacon, o hotel justificou os preços dizendo que a cidade “não dispõe de capacidade hoteleira compatível com a magnitude do evento” — justamente o problema que o investimento público pretendia resolver. A rede se negou a detalhar sua política de preços alegando “confidencialidade contratual”.
Pressão internacional
A escalada dos preços causou incômodo internacional. Países desenvolvidos e em desenvolvimento assinaram uma carta pressionando o governo Lula a transferir parte do evento para outra cidade, alegando falta de estrutura e abusos logísticos em Belém.
A UNFCCC (órgão climático da ONU) realizou uma reunião de emergência sobre o tema. Apesar disso, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, reforçou:
“A COP vai ser em Belém. Não há plano B.”
Ele ainda criticou a postura dos empresários locais:
“Talvez os hotéis não estejam percebendo a crise que estão provocando.”
Omissão e argumentos genéricos
Entre os argumentos mais usados pelos hotéis para não responder à Senacon estão cláusulas de sigilo, ausência de contrato prévio (em alguns casos) e até respostas genéricas copiadas entre redes concorrentes. Em muitos casos, as empresas simplesmente ignoraram os ofícios.
A ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis), por sua vez, justificou os valores altos dizendo que se trata de uma “lei antiga de mercado: oferta e procura”.
Diárias até 1.000% mais caras
A Senacon, que iniciou o processo em junho, identificou aumentos de até 1.000% nas diárias comparadas aos valores praticados fora do período do evento. O órgão segue tentando obter respostas formais e pode aplicar penalidades com base no Código de Defesa do Consumidor.